sexta-feira, setembro 14, 2007

No dia em que Jim Morrison me guiou...

Esperei alguns minutos por um trem na estação central de Leiden. O destino: Amsterdam. Fazia um tempo relativamente bom para uma pessoa que está acostumada ao calor constante que assola no Recife. Carregava na bolsa dois sanduíches, uma maçã, um pacote tamanho médio de Spekulaas e dois Stroopwafels. Além da bolsa e do casaco leve, um cachecol me decorava. O gorro já fazia parte de mim, pois sempre senti frio nas orelhas. Após aproximadamente trinta minutos de viagem de trem cheguei na estação central de Amsterdam. Não me sentia a vontade em Amsterdam, talvez porque a cidade é grande demais para os padrões de Leiden ou porque nunca tive um bom senso de direção. Sabia que o mapa da cidade, cedido gentilmente por Daniel, não seria de grande valia, uma vez que sempre me desloco pelos lugares marcando o caminho visualmente. O mapa, portanto, não seria de grande utilidade, já que era apenas a terceira vez que eu pisava na cidade. Saí por um dos portões apinhados de gente de toda a qualidade tentando imaginar qual seria meu próximo passo. Eu tinha que chegar na N.Z. Voorburgwal. A explicação que Daniel me deu para navegar com seu mapa teria sido de grande valia se eu tivesse feito o caminho correto desde o começo, mas depois que eu saí cruzando várias ruas, tive a certeza, em pouquíssimos minutos, de que estava perdido. E mais, sem querer bancar o "turista com o mapa na mão" eu saí andando loucamente. Não sei como, mas consegui fazer o caminho totalmente inverso do que deveria. Eu já tinha atravessado dezenas de ruazinhas e continuava a andar apressado como um recifense faz na Avenida Guararapes (já reparou como as pessoas andam em Recife?!) quando desisti instintivamente. Imaginei que já era a hora de parar alguém na rua para perguntar sobre como chegar ao meu destino. O primeiro gringo que parei andando na rua devia ter quase dois metros de altura e tinha uma cara de poucos amigos. Mas ele foi muito gentil e me auxiliou com o mapa. Incrível como os holandeses, em geral, conhecem de mapas e sabem se guiar bem nas ruas estreitas da maioria das suas cidades. Ele me disse que eu estava no caminho totalmente oposto e que eu deveria voltar para a estação central e localizar um grande hotel na esquina da rua procurada. Era para lá eu devia ter ido de primeira. Era o mais fácil a se fazer, mas eu fiz totalmente o oposto. Ele deve ter ficado imaginando o quão desnorteado eu era, e me desejou boa sorte. Eu agradeci e fui andando e fazendo o reconhecimento ruas que tinha atravessado alguns minutos antes.
Após uma nova caminhada eu consegui realizar a proeza de me perder de novo. Mas dessa vez o caminho era mais fácil. Eu conseguia avistar o Prins Hendrikkade e a estação central que eram mais do que pontos de referência. Eu podia voltar para lá e tentar refazer o caminho. Mas eu decidi arriscar novamente e saí andando em direção a primeira rua que vi. Ao passar rapidamente por uma rua, vi um Coffeeshop chamado The Doors. Na hora não me dei conta, mas retornei, não sei o porquê, e parei ali mesmo para perguntar para alguma pessoa a direção. Eu me dirigi a alguém que estava sentado em um banquinho daqueles de piquenique, e que estava tomando um café enquanto lia um jornal. Era uma figura magra, que usava óculos escuros e mexia lentamente uma colherzinha como se quisesse espalhar bem o conteúdo da xícara. Depois percebi que eu tinha parado na porta de um Coffeeshop para pedir informações! Inicialmente pedi desculpa por interromper o café dele. Em seguida, perguntei se ele sabia onde era a Nieuwezijds Voorburgwal. Ele começou a falar inglês comigo, talvez por achar meu holandês ruim. (Geralmente, quando estou nervoso ou apressado não consigo me expressar bem em outra língua). Eu disse para o homem que não falava bem inglês, mas que falava um pouco de holandês. Gosto de fazer isso para forçar o diálogo em holandês, mas quase sempre eu volto a falar inglês, dada a debilidade de meu holandês. Ele nem deixou que eu avançasse no diálogo e me interrompeu perguntando se eu estava procurando putas. Ele repetiu a palavra prostituta em holandês (hoeren) - para dar ênfase ao questionamento - e eu me lembrei que a rua que eu procurava ficava próxima ao Red Light District! Disse que entendia o significado, mas que não estava atrás de garotas. Perguntei novamente se ele sabia se a Oxford House ficava na rua em questão e ele confirmou com a cabeça. Depois me explicou o que eu deveria fazer para chegar na N.Z. Voorburgwal. Agradeci e saí rindo. No caminho saí cruzando vários outros Coffeshops, que tinham estampados em suas vitrines as cores da Jamaica, retratos de Bob Marley, folhas de maconha, etc, e sentido diversos aromas de cannabis que eram consumidas nesses locais.
Acho que foi Jim Morrison que me enviou inconscientemente para aquele Coffeeshop. Fiz algo realmente não convencional ao pedir a direção para um chapado na porta de um Coffeeshop. Ao menos deu certo!

sexta-feira, agosto 31, 2007

Maurício de Nassau em Recife


Maurício de Nassau apresentando o boi de Melchior para os transeuntes...

Entrando no Palácio do Governo para fazer um discurso mais enérgico...

Avisando que o boi iria voar...

Mostrando o boi dentro do palácio...

E saindo para dar mais uma voltinha...
Eu não vi o boi voar... até que esperei...

quinta-feira, agosto 23, 2007

De vez em quando pinta uma coisinha, uma carreirinha ou... um manifesto!

MANIFESTO EM DEFESA DA REDUÇÃO DE DANOS
Desde a década de 80 estamos acompanhando, no Brasil, vários avanços significativos no campo do uso de drogas, a partir da adoção gradual da perspectiva da Redução de Danos, seja pelos governos, seja por organizações da sociedade civil, tornando-se inclusive uma política pública oficial no nosso país, regulamentada por decretos, portarias e leis.
A perspectiva da Redução de Danos da qual falamos, está em consonância com princípios fundamentais da promoção da saúde e da cidadania, pautadas em consensos do campo dos Direitos Humanos, especialmente do direito à Saúde, presente na Constituição Federal do Brasil e nos fundamentos e diretrizes do nosso Sistema Único de Saúde – SUS.
A perspectiva da Redução de Danos da qual falamos, tem possibilitado avanços significativos na redução da infecção pelo HIV e hepatites virais; na adoção de estratégias de prevenção, cuidado e auto-cuidado, comprometidas com as pessoas enquanto cidadãs; na possibilidade de tratamento digno e respeitoso, que leve em consideração as pessoas e sua autonomia, também no processo de busca por cuidados à saúde, como tem nos ensinado os processos de reforma sanitária e psiquiátrica.
A perspectiva de Redução de Danos da qual falamos, nos coloca diante do fracasso das concepções e intervenções polarizantes, que simplificam demais a existência humana, evidenciando que a questão não é apenas de ser contra ou a favor das drogas, mas sobretudo é necessário acolher e aceitar as pessoas que usam.
Adotar a Redução de Danos não é incentivar o uso, nem deixar as pessoas usarem - pensávamos que esse era um debate superado. É incentivar o Cuidado, a Saúde e a Cidadania, em suas formas mais poéticas e nas suas formas mais plenas de Direitos.
Como reafirmado em Carta recente da ABORDA – Associação Brasileira de Redutoras e Redutores de Danos, não é admissível o reforço aos "discursos reacionários que consideram à Redução de Danos como uma estratégia duvidosa, e não a política oficial do Estado Brasileiro para o tratamento de questões relacionadas ao uso problemático de álcool e outras drogas, além de suas
inestimáveis contribuições ao combate da epidemia de Aids e hepatites entre pessoas que usam drogas e suas redes sociais".
Os recentes incidentes e questionamentos acerca da legitimidade, efetividade e eficácia da Redução de Danos, acompanhados a partir da proibição dos folhetos na Parada do Orgulho GLBT de São Paulo e na suspensão de apoio da Fapesp ao Projeto Baladaboa, voltados ao consumo de ecstasy, são inadmissíveis e configuram-se como um retrocesso sem igual.
Assinamos esse Manifesto em defesa da Redução de Danos, da saúde e da cidadania das pessoas que usam drogas, das políticas públicas justas e humanizadas que temos no nosso país, da nova lei sobre drogas, dos decretos e leis municipais que regulamentam a Redução de Danos, da Política de Atenção Integral à saúde de usuários de álcool e outras drogas, enfim, de toda nossa história de construção de uma sociedade digna e democrática.
E que não precisemos outras vezes dizer o óbvio.
Brasil, junho de 2007

Para deixar o visual menos clean...