domingo, março 08, 2009

Pelo desenvolvimento turístico do Recife

Nobres turistas de Além Mar
estivadores e pobretões que veem ao Brasil

Nossa Agência de viagens (a SifudiTour) está ofererendo excelentes serviços de entretenimento e lazer dos quais vocês certamente se interessaram em comprar.

Uma lista dos nossos mais velhos produtos está logo abaixo, com depoimentos exclusivos de alguns consumidores:

1 - O "Chuta dondocas":
Jogue uma dondoca pela janela (não, não é assassinato, e sim, suicídio) . Os usuários atestaram no passado que é muito prazeroso.
"Tem-se a senzação de estar contribuindo com a prezervação da naturesa! Nós recomendam!" Declarou um casal de franceses.

Investimento no produto:
Dondoca gorda: apenas 50 euros + taxas.
Dondoca gorda e velha: 45 euros + taxas.
Dondoca magra: 40 euros + taxas.
Dondoca magra e velha: 40 euros, livre de taxa.

2 - Cu-Ovo frito no Lindú:

Disponiblizamos bancos públicos no famosérrimo Parque Dona Lindú, com temperaturas suficientes para que seus ovos sejam fritos com satisfação!
"Até hoje sinto os maravilhosos e terapêuticus efeitos! Vale muito a pena!" Alegou um turista italiano.

Investimento:
Só 10 euros + taxas.

3 - Alimentando os tubarões:
Nossa belíssima praia urbana possuía dezenas de Carcharhinus. Venha alimentá-los!
"Eu dei a bunda inteira e resolvi todos os meus problemas hemorróidicos! Foi mara!" Falou à reportagem uma turista argentina.

Investimento:
Dois pedaços de panturrilha: 15 euros + taxas de preservação ambiental.
Uma banda de bunda: 20 euros + taxas de preservação ambiental.
Duas bandas de bunda: 25 euros + taxas de preservação ambiental

4 - Menininhas(os) (n)à-baladas:
Estupre garotinhas e garotinhos a partir de 12 anos, cheirando a leite-de-gringo-no-dente!
"Péga-mos geral, se demos bom-D+!", disse um grupo de búlgaros no verão passado.

Investimento:
Apenas 5 euros - livre de qualquer taxa.
5 - Cerveja gelada em praia badalada:
Cervejas de várias marcas por precinho especial!
"A cervaija é mui gustosa!", dizem os portugueses.

Investimento:
Apenas 1 euro.

Com exclusividade para os clientes da SifudiTour, tem MUITO, MAIS MUITO MAIS:

6 - Oferecemos pacotes para Porto de Galinhas, onde poderão à vontade pisotear e destruir os corais:
"É senzazional pular nos coral!", falou uma garotinha da Irlanda.

Investimento:
Apenas 100 euros + aluguel de botas com solados especiais para destruição.

7 - Oferta exclusiva para este verão:
Frite mais ovos nos bancos de mármore do Bulevard "Pracinha" de Porto de Galinhas. Cunzinhe seu ovo e seu cúnzinho (é meu?) e esfrie-os no salzinho das límpidas água do mar!
Com os 100 euros, e mais 50 euros, num total de 250 euros + taxas.

8 - Carnaval em Olinda:
Venha curtir um assalto nas ladeiras da cidade alta!
"It's very muito emocionant. Great experiency! Every all see and nobody fais nada!", declarou um grupo de ingleses.

AGUARDAMOS ANSIOSAMENTE SUA VISITA!

Entrem em contato através do site:

www.sifudidustour.com

* Programa Exclusivo de Desenvolvimento do Turismo Sexual, Destrutivo e Antropofágico Pernambucano Urbano Trivial Acontecimental.

PS: este é um espaço publiciotário. Posts pagos. conteúdo de exclusividade do anunciante.

Extraído sem autorização de um blog amigo, que traz notícias do futuro:
http://diariodoporvir.blogspot.com/

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Sobrecú: Antevisão da Lupercalía?

Seis anos nos separam de jovens alucinados, bêbados, exemplarmente drogados, com o espírito voraz pela vida e nos lábios o grande Sim. Não se sabe ao certo o número deles, alguns textos inescritos citam três, outros sete e os mais exagerados, alardeiam aproximadamente, cinqüenta e quatro pessoas; o que apesar da precisão dos números deve-se ter cuidado ao tomar como verossímil.

Apesar do gosto compartilhado pela fala, poucas palavras fizeram-se necessárias para que emergisse um bloco carnavalesco. O lugar e hora onde essas palavras foram pronunciadas perderam-se em memórias ávidas pelo presente. Assim como os passos de pombos que infestam a cidade o acontecimento Sobrecú tomou forma: por entre sussurros ao pé-do-ouvido, gritos e gestos bruscos em mesas de bares espúrios, monólogos de bêbada sabedoria, risos e delírios.


As armas, ou brinquedos: a sátira, a ironia, o desdém, o descompromisso com tudo que não levasse a sério (e as últimas conseqüências) o Riso. A forma: absolutamente maleável, imprevisível, inspirada no jazz de Charles Mingus e Miles Davis, na potência beethoviana, na lisérgica música que explode em fluidos rosas, nos ruídos quase musicais do mundo. Uma festa para deuses. Deuses do passado, deuses do por vir: Dionísio, Baco, Pã, Fauno, Zaratustra e todos os demais deuses que dançam, e todos os que não nasceram ainda. O sacrifício: o próprio corpo entregue, suor e desejo a “resoluta urgência do agora”.



Ambicionaram um eterno-vagar-sem-origem-ou-fim, preparados a qualquer acontecimento im-possível.

Certos que “todos os dias nascem deuses”, o Sobrecú prepara mais uma liturgia ao futuro: “velhos carnavais, que já se foram e que não voltam mais, fiquem para trás, pois o que quero é brincar bem mais”. E mais além, “noventa e sete foi um ano difícil... setenta e quatro foi um ano pior... dois mil e oito está sendo legal, dois mil e quarenta e nove vai ser muito melhor.” O palco orgástico não é mais a velha Roma, como nos tempos das Lupercalías, nem a mais velha Grécia e as deliciosas e ditírambicas Grandes Dionisíacas, mas Recife: “Eita cidade maluca, quando eu saí tava sol, depois choveu, ventou forte, agora já tá sol.” Mais especificamente, o tortuoso caminho tem seu apogeu em Afogados, como o intuito de “pegar o Sobrecú, que é uma carne muito boa pra gente tomar pitu” ou quem sabe um “um doce”; e, quando um dos donos da múltipla festa das carnes aparecer “Satanás”, “eita zica” “toma um L que passa”.

O Sobrecú não é a Lupercália, nem mesmo uma Grande Dionisíaca, não é uma duplicação ilusória de um fantasma anacrônico; é a repetição futura de um acontecimento desconhecido. “Se todos vivessem seus sonhos efêmeros, fantasias se tornariam reais e o carrossel de fantasias teria fim.” O Sobrecú em vez pretender a sobreposição (de todo e de sempre) idealista do fantástico ao Real, ao contrário, ele é o agenciamento desse carrossel fantástico com a frágil e esfumaçada realidade.

E mais além, sempre mais ainda, para olhos maldosos o suficiente será possível entrever por entre corpos hodiernos, os deuses antigos, libações e sacrifícios mágicos que habitam os espíritos no Carnaval.



quinta-feira, janeiro 22, 2009

"O Evangelho segundo o João" - Roberto Vieira

Não. Não fiquei triste com a morte dele. Pra que mentir? Não pude me vingar. Eu preferia que ele nem tivesse existido. Pouparia muitos do desemprego, da vergonha. Você não imagina o que é rirem de você. Milhares de pessoas rindo de você, como se você fosse um palhaço de circo mambembe. Até mesmo seus amigos, seus filhos, rindo.
Eu sempre joguei sério. Na bola. Sempre fui respeitado. Quando era pequeno rezava todas as noites para ser um craque. Um jogador de futebol. Eu acreditava nas minhas orações. Obedecia meus pais. Pedia a benção. Vim jogar no Rio. Virei capa de revista. Comecei a sonhar com a seleção. Foi aí que meu mundo virou de pernas pro ar.
Eu o conhecia das peneiras. Um aleijado. Dava pena. Chegava calado e saía mudo. Quando os técnicos viam aquelas pernas eles o mandavam embora. Mas ele sempre voltava.
Foi então que um dia eu soube que ele enfeitiçou o Nilton. Logo o Nilton, meu ídolo! E foi escalado pra jogar no Botafogo. E começou a fazer gols.
Imaginei que devia ser piedade divina e fiquei na minha. Um dia nosso destino iria se cruzar. E seria seu fim.
Coronel e Jordan tinham conversado comigo:
'Cuidado!'
Eu fiquei rindo. Ele também tinha enfeitiçado os dois. Prometi a mim mesmo que eu ia acabar com aquela palhaçada.
Chegou o dia. Domingo. Maracanã lotado.
Batem o centro. Vem a primeira bola e eu me antecipo. Sério. Na bola. Toco para o ataque e volto correndo para minha posição. Sem pena. Pois o que Coronel e Jordan sentiam era pena. Eu ia mostrar ao mundo a farsa das pernas tortas.
A segunda bola escapou de suas chuteiras.
O primeiro tempo se encaminhava para o fim quando ele domina a pelota. Eu entro no meio do joelho dele. Sem pena. Pra quebrar. Ele cai. Olha o joelho. Levanta.
Alguém na geral grita:
'Quebra ele!'
Ele sorri. Para a geral e para mim. Como um passarinho no alçapão. Aquilo me desconcertou. A pancada que eu dei poderia derrubar uma parede. Mas ele levantou sorrindo pra mim.
O Maracanã lotado.
E a bola chegou até ele um segundo antes de mim. E ele partiu na direção do gol. Eu atrás. Ele parou, súbito. Eu passei, lotado. Voltei e dei um carrinho. Ele escapou pela direita. Eu levantei e ele driblou pela esquerda. Beijei o chão. Ele cruzou na cabeça de Paulo Valentim. Gol.
Perdi a conta das vezes em que fui driblado. Não vi mais a cor da bola. O Botafogo venceu por 6x2. Alegria do povo.
Porém, um lance ficou gravado em minha memória. Sem dribles. Pisei num buraco. Chorei de dor. Ele partia em direção ao gol. Seria o sétimo gol. A torcida já gritava '7, 7, 7'... As mesmas pessoas que gritavam 'quebra, quebra, quebra'.
Inexplicavelmente ele parou e tocou a bola para fora. Tocou a bola para fora pra que eu fosse atendido.
Fratura. Aleijado. Ele me ajudou a sair de campo.
Nunca mais nos vimos.
Eu vim trabalhar nessa fábrica. As capas de revista eu guardo lá em casa.
Com o tempo ele virou gênio. Tão aleijado quanto eu. Cheio de mulheres. De fama.
De vez em quando vem um jornalista como você vem me entrevistar.
Quer saber a verdade. A verdade?
A verdade é que não. Não fiquei triste com a morte dele. Pra que mentir? Não pude me vingar.
Eu preferia que ele nem tivesse existido...

Publicado sem autorização: http://oblogdoroberto.zip.net/

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Calor Du-Caraí

(O post é uma tentativa de responder ao nosso caríssimo leitor anônimo, este, reclamou da falta de postagem no mês de janeiro. Espero que as dúvidas sejam por fim, esclarecidas.)

Tava um calor dos diabos, está ainda, não sei por que tenho a mania de falar no passado, quando ainda estou imerso até o pescoço no inferno. Calor, úmido, pesaroso, mais que isso, denso, pesado. O ar do ventilador, morno e soprava como gêiser, lentamente, o vai e vêm ruidoso só fazia aumentar o calor. Afora o hálito quente do ventilador não havia um sinal de vento, uma brisa sequer, nem nem. Na rua, o asfalto, o cimento das paredes, delgados, alucinantes, flácidos, moles, e tudo isso ressoava na pele, e eu derretia, derretia. Voltei imediatamente à casa. Não é possível pensar agora, a derme a suar de bica, os órgãos – sinto-os cozinhar, o juízo fervia, escorria pelas orelhas, e eu me esforçava para não respirar demasiado rápido, nem um movimento brusco, buscava a inércia, etérea, eterna e perfeita. Faltam sinônimos nos dicionários para tanto calor.

O banho, a água quente e a inevitável suadeira ainda na água. Escaldante. O suor vira grude, uma outra camada se forma sobre a derme. Como alguém pode ser feliz num lugar tão quente? O amarelo do sol que jamais se olha; jamais se vê de frente, sempre submissos ao sol. Certo poeta, não me recordo qual, nem se, de fato, se trata de um poeta, disse: o sol e o mal nunca podem ser encarados frente a frente. Um calor de matar. É fácil compreender como no Estrangeiro, ele dizia com a maior sinceridade “matei porque o sol estava em minha cara”. Não é possível antever os crimes que posso cometer nesse calor...

Havia de matar o tédio, comecei tentando achar o nome preciso, um nome ou expressão que desse conta do calor que faz hoje, achei fácil: que calor du caraí. Mas o calor não cedeu um grau sequer a minha precisão semiótica. Meu corpo continuava derretendo.

Resolvi visitar os mortos, ir ter com os antigos. Eles sempre me ajudaram, me distraem, levam-me a distâncias, fazem-me pensar que um dia algo foi diferente, e ainda me concedem a impressão de ter aprendido algo. Mesmo com o sol pondo em suspenso toda a história: “nada de novo sob o sol”.

Pois bem, meus queridos mortos, relacionavam absolutamente toda a vida ao clima, aos humores do tempo: seja desgraça ou boa ventura dos povos; quer seja a sensualidade ou a abstenção sexual: calor esbanja, esparrama, derrama, enquanto o frio retêm, anseia guardar para si, distância, posto que, aumenta a proteção entre os corpos, e por aí vai.

Independente do anacronismo, a idéia da sobre-determinação geográfica, isto é, que o meio vai determinar a possibilidade dos viventes, a sua mentalidade, seus costumes já não é mais bem vista entre os vivos, no entanto, penso que, talvez, não estivessem eles (os mortos) tão errados assim. E sinto o dever de dizer sim ao clima, enfim, o melhor a fazer é ir a praia comer ostras (feliz de um bicho que come outro) e tomar uma cerveja...