sábado, abril 18, 2009

Instruções para subir uma escada


Ninguém terá deixado de observar que frequentemente o chão se dobra de tal maneira que uma parte sobe em ângulo reto com o plano do chão, e logo a parte seguinte se coloca paralela a esse plano, para dar passagem a uma nova perpendicular, comportamento que se repete em espiral ou em linha quebrada até alturas extremamente variáveis. Abaixando-se e pondo a mão esquerda numa das partes verticais, e a direita na horizontal correspondente, fica-se na posse momentânea de um degrau ou escalão. Cada um desses degraus, formados, como se vê, por dois elementos, situa-se um pouco mais acima e mais adiante do anterior, princípio que dá sentido à escada, já que qualquer outra combinação produziria formas talvez mais bonitas ou pitorescas, mas incapazes de transportar as pessoas do térreo ao primeiro andar.

As escadas se sobem de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incômodas. A atitude natural consiste em manter-se em pé, os braços dependurados sem esforço, a cabeça erguida, embora não tanto que os olhos deixem de ver os degraus imediatamente superiores ao que se está pisando, a respiração lenta e regular. Para subir uma escada começa-se por levantar aquela parte do corpo situada embaixo à direita, quase sempre envolvida em couro ou camurça, e que salvo algumas exceções cabe exatamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa parte, que para simplificar chamaremos de pé, recolhe-se a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-se à altura do pé faz-se que ela continue até colocá-la no segundo degrau, com o que neste descansará o pé, e no primeiro descansará o pé. (Os primeiros degraus são os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna difícil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé.)

Chegando dessa maneira ao segundo degrau, será suficiente repetir alternadamente os movimentos até chegar ao fim da escada. Pode-se sair dela com facilidade, com um ligeiro golpe de calcanhar que a fixa em seu lugar, do qual não se moverá até o momento da descida.

domingo, março 08, 2009

Pelo desenvolvimento turístico do Recife

Nobres turistas de Além Mar
estivadores e pobretões que veem ao Brasil

Nossa Agência de viagens (a SifudiTour) está ofererendo excelentes serviços de entretenimento e lazer dos quais vocês certamente se interessaram em comprar.

Uma lista dos nossos mais velhos produtos está logo abaixo, com depoimentos exclusivos de alguns consumidores:

1 - O "Chuta dondocas":
Jogue uma dondoca pela janela (não, não é assassinato, e sim, suicídio) . Os usuários atestaram no passado que é muito prazeroso.
"Tem-se a senzação de estar contribuindo com a prezervação da naturesa! Nós recomendam!" Declarou um casal de franceses.

Investimento no produto:
Dondoca gorda: apenas 50 euros + taxas.
Dondoca gorda e velha: 45 euros + taxas.
Dondoca magra: 40 euros + taxas.
Dondoca magra e velha: 40 euros, livre de taxa.

2 - Cu-Ovo frito no Lindú:

Disponiblizamos bancos públicos no famosérrimo Parque Dona Lindú, com temperaturas suficientes para que seus ovos sejam fritos com satisfação!
"Até hoje sinto os maravilhosos e terapêuticus efeitos! Vale muito a pena!" Alegou um turista italiano.

Investimento:
Só 10 euros + taxas.

3 - Alimentando os tubarões:
Nossa belíssima praia urbana possuía dezenas de Carcharhinus. Venha alimentá-los!
"Eu dei a bunda inteira e resolvi todos os meus problemas hemorróidicos! Foi mara!" Falou à reportagem uma turista argentina.

Investimento:
Dois pedaços de panturrilha: 15 euros + taxas de preservação ambiental.
Uma banda de bunda: 20 euros + taxas de preservação ambiental.
Duas bandas de bunda: 25 euros + taxas de preservação ambiental

4 - Menininhas(os) (n)à-baladas:
Estupre garotinhas e garotinhos a partir de 12 anos, cheirando a leite-de-gringo-no-dente!
"Péga-mos geral, se demos bom-D+!", disse um grupo de búlgaros no verão passado.

Investimento:
Apenas 5 euros - livre de qualquer taxa.
5 - Cerveja gelada em praia badalada:
Cervejas de várias marcas por precinho especial!
"A cervaija é mui gustosa!", dizem os portugueses.

Investimento:
Apenas 1 euro.

Com exclusividade para os clientes da SifudiTour, tem MUITO, MAIS MUITO MAIS:

6 - Oferecemos pacotes para Porto de Galinhas, onde poderão à vontade pisotear e destruir os corais:
"É senzazional pular nos coral!", falou uma garotinha da Irlanda.

Investimento:
Apenas 100 euros + aluguel de botas com solados especiais para destruição.

7 - Oferta exclusiva para este verão:
Frite mais ovos nos bancos de mármore do Bulevard "Pracinha" de Porto de Galinhas. Cunzinhe seu ovo e seu cúnzinho (é meu?) e esfrie-os no salzinho das límpidas água do mar!
Com os 100 euros, e mais 50 euros, num total de 250 euros + taxas.

8 - Carnaval em Olinda:
Venha curtir um assalto nas ladeiras da cidade alta!
"It's very muito emocionant. Great experiency! Every all see and nobody fais nada!", declarou um grupo de ingleses.

AGUARDAMOS ANSIOSAMENTE SUA VISITA!

Entrem em contato através do site:

www.sifudidustour.com

* Programa Exclusivo de Desenvolvimento do Turismo Sexual, Destrutivo e Antropofágico Pernambucano Urbano Trivial Acontecimental.

PS: este é um espaço publiciotário. Posts pagos. conteúdo de exclusividade do anunciante.

Extraído sem autorização de um blog amigo, que traz notícias do futuro:
http://diariodoporvir.blogspot.com/

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Sobrecú: Antevisão da Lupercalía?

Seis anos nos separam de jovens alucinados, bêbados, exemplarmente drogados, com o espírito voraz pela vida e nos lábios o grande Sim. Não se sabe ao certo o número deles, alguns textos inescritos citam três, outros sete e os mais exagerados, alardeiam aproximadamente, cinqüenta e quatro pessoas; o que apesar da precisão dos números deve-se ter cuidado ao tomar como verossímil.

Apesar do gosto compartilhado pela fala, poucas palavras fizeram-se necessárias para que emergisse um bloco carnavalesco. O lugar e hora onde essas palavras foram pronunciadas perderam-se em memórias ávidas pelo presente. Assim como os passos de pombos que infestam a cidade o acontecimento Sobrecú tomou forma: por entre sussurros ao pé-do-ouvido, gritos e gestos bruscos em mesas de bares espúrios, monólogos de bêbada sabedoria, risos e delírios.


As armas, ou brinquedos: a sátira, a ironia, o desdém, o descompromisso com tudo que não levasse a sério (e as últimas conseqüências) o Riso. A forma: absolutamente maleável, imprevisível, inspirada no jazz de Charles Mingus e Miles Davis, na potência beethoviana, na lisérgica música que explode em fluidos rosas, nos ruídos quase musicais do mundo. Uma festa para deuses. Deuses do passado, deuses do por vir: Dionísio, Baco, Pã, Fauno, Zaratustra e todos os demais deuses que dançam, e todos os que não nasceram ainda. O sacrifício: o próprio corpo entregue, suor e desejo a “resoluta urgência do agora”.



Ambicionaram um eterno-vagar-sem-origem-ou-fim, preparados a qualquer acontecimento im-possível.

Certos que “todos os dias nascem deuses”, o Sobrecú prepara mais uma liturgia ao futuro: “velhos carnavais, que já se foram e que não voltam mais, fiquem para trás, pois o que quero é brincar bem mais”. E mais além, “noventa e sete foi um ano difícil... setenta e quatro foi um ano pior... dois mil e oito está sendo legal, dois mil e quarenta e nove vai ser muito melhor.” O palco orgástico não é mais a velha Roma, como nos tempos das Lupercalías, nem a mais velha Grécia e as deliciosas e ditírambicas Grandes Dionisíacas, mas Recife: “Eita cidade maluca, quando eu saí tava sol, depois choveu, ventou forte, agora já tá sol.” Mais especificamente, o tortuoso caminho tem seu apogeu em Afogados, como o intuito de “pegar o Sobrecú, que é uma carne muito boa pra gente tomar pitu” ou quem sabe um “um doce”; e, quando um dos donos da múltipla festa das carnes aparecer “Satanás”, “eita zica” “toma um L que passa”.

O Sobrecú não é a Lupercália, nem mesmo uma Grande Dionisíaca, não é uma duplicação ilusória de um fantasma anacrônico; é a repetição futura de um acontecimento desconhecido. “Se todos vivessem seus sonhos efêmeros, fantasias se tornariam reais e o carrossel de fantasias teria fim.” O Sobrecú em vez pretender a sobreposição (de todo e de sempre) idealista do fantástico ao Real, ao contrário, ele é o agenciamento desse carrossel fantástico com a frágil e esfumaçada realidade.

E mais além, sempre mais ainda, para olhos maldosos o suficiente será possível entrever por entre corpos hodiernos, os deuses antigos, libações e sacrifícios mágicos que habitam os espíritos no Carnaval.